O Agostinho Neto dizia que as mãos dele tinham carregado pedras para os alicerces do Mundo e que merecia o seu pedaço de pão. A minha mãe queixa-se que os alicerces do Mundo são muito fundos. Eu acho que enquanto a muitos assobiam para o lado, alguns de nós (muito até) andamos a ajudar o Agostinho Neto na tarefa de alicerçar o Mundo, o Mundo que queremos.
Outros, no entanto, fingindo cavar as fundações, aprofundam e alargam a vala comum em que pretendem enterrar as vidas de quase todos. A esses resta-me dizer que quanto mais funda cavarem a vala, mais forte e mais alta se erguerá a torre da nossa Vitória.
É uma expressão que me parece particularmente bem conseguida da canção dos Trovante.
Acho mesmo que pode ter mais que uma interpretação; tem a boa, muito boa, afinal o Futuro é o que está por contruir, é o que fizermos dele e pode sempre ser melhor do que foi o Passado. Se tivermos saudades do Passado quer dizer que já estivemos melhor do que estamos e que temos muito trabalho pela frente, mas o Futuro, o Futuro é sempre aquela possibilidade brilhante e seguramente muito mais bonita do que o Presente!
Mas, para ser muito franca, desde há uns tempos a esta parte que do que eu tenho saudades é de achar que o Futuro vai ser risonho, tenho saudades de não o ver coberto de negrume. Não o Futuro mais ou menos longínquo, esse eu sei que será bom, muito bom mesmo (afinal faço por isso), mas a curto e médio prazo o Futuro é negro. É negro de dívida, é negro de gestão danosa, é negro de crime político, social e simplesmente de colarinho branco.
O Futuro dos próximos anos não é Futuro que se preze, porque o Futuro é o tempo em que se realizam os sonhos e nos próximos anos não vejo muitos sonhos a realizarem-se, não vejo os sonhos de muitos a realizarem-se (de uma mão-cheia de energúmenos que partilham o mesmo sonho de enriquecimento desmedido sim). Não vejo o nosso povo a realizar sonhos nos próximos anos.
Os próximos anos são todos de Presente, um Presente de construção do Futuro, é certo, mas de Presente. Um Presente em que se vão adiando os sonhos (em alguns casos cancelando irremediavelmente). Os próximos anos serão anos de privações, de sacrifícios, de desemprego, de desrespeito por quem trabalha e pelo trabalho que faz. Serão anos de viver à míngua, de adiar casar, ter filhos ou sair de casa dos pais. Serão anos em que se deitam contas ao que se trabalhou e em que estas nunca batem certo (ou justo) com a pensão de reforma com que é suposto ter-se um final de vida digno. Os próximos anos já estão hipotecados, não são Futuro que se preze, não.
Enfim, não podemos esperar que seja só o Agostinho Neto a colocar pedras nos alicerces do Mundo, todos temos que merecer o nosso pedaço de pão. Sabemos, sem dúvida, que alguém, de alguma geração futura terá um Presente bem firme e seguro porque os alicerces que estamos a construir agora são grandes p'ra burro!
Como diz o Silvio, "Somos prehistoria que tendrá el futuro".