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27.11.15

Deixemos de treinar, voltemos a ensinar

O Público de ontem traz uma notícia sobre o fim dos exames nacionais de português e matemática que titula:

Fim dos exames do 4.º ano: as crianças andaram três anos a treinar “para nada”?

A mim este título parece-me de sobremaneira esclarecedor. Desde a imposição dos exames nacionais no 4º ano que as nossas crianças vão para a escola treinar. Pelo menos a português e a matemática já não se aprende, treina-se.
Não se aprende a ler e interpretar, não se aprende a escrever correctamente, nem a usar bem a gramática, não se estudam histórias, poesias, nem canções. Não se aprende a contar, somar ou subtrair. Não importa que Portugal seja um rectângulo nem a Terra uma esfera. Não interessa a beleza do mar, nem os rios que aos poucos descem das montanhas e se vão lá juntar.
O que importa, tudo o que importa é fazer boa figura no exame no fim da escola primária.
Importa aos alunos que querem chegar ao 5º ano; importa aos pais que compraram todos os cadernos de exercícios porque querem gabar-se da nota do filho ao pobre coitado que contou os tostões para poder comprar tão só os manuais escolares; importa aos professores cujo desempenho é medido em função do aproveitamento escolar dos seus alunos. Não faz mal que a criança não socialize com as outras ou que não saiba nadar, dançar ou jogar à bola, nem saiba outras línguas. As actividades extracurriculares são de pouca ou nenhuma importância e a leitura recreacional de menos ainda.
O importante é treinar.

Tudo o que importa é ter boa nota no exame nacional da quarta classe!
É isto a nossa escola primária: um campo de treino.

Talvez a partir de hoje voltemos a considerar a hipótese de ensinar as nossas crianças.

16.10.12

Quem és tu assim tão simples?

Hoje, como é habitual, acordei com a Antena 1 e ouvi uma reportagem sobre o pão caseiro no distrito de Bragança (ouvir aqui). São dois minutos de reportagem que acabam magistralmente:

"Antigos fornos de pão agora com mais actividade Numa fornada de pão as famílias economizam muito dinheiro e têm a garantia de um pão de excelente qualidade."

Esta reportagem lembrou-me um texto do meu livro de Língua Portuguesa da 4ª classe chamado "A cidade e a aldeia". É a exaltação da ruralidade empobrecida, "A alma de Portugal" que vive num casebre desprovido de electricidade. Eu gosto muito de pão caseiro, mas foi isto que a reportagem de hoje me lembrou.


"A Cidade e a Aldeia"
(Abílio Mesquita)

Cidade - Quem és tu, assim tão simples?
Aldeia - E tu, quem és a final?
Cidade - A nobreza da Cidade.
Aldeia - Aldeia de Portugal.
Cidade- Tenho lindas pedrarias,
              Jóias mil de muitas cores...
Aldeia - E eu tenho maior riqueza
              Nas minhas tão lindas flores...
Cidade - Tenho risos, alegrias
              Divertimentos constantes
Aldeia - Tenho a música dos ninhos
              E canções inebriantes.
Cidade - Tenho luz de noite a jorros,
              E não me levas a palma.
Aldeia - Tenho o Sol durante o dia,
              De noite a luz da minha alma...
Cidade - Vivo em palácios vistosos
              Que abundam pela Cidade.
Aldeia - E eu num casebre pequen0,
              Que o Sol beija com vaidade!
Cidade- A História fala de mim,
              Porque tenho algum valor...
Aldeia - Também tenho a minha História,
              Escrita com o meu suor
Cidade - Tenho o luxo que tu vês
              Próprio da minha grandeza.
Aldeia - E eu o luxo e a vaidade de gostar da singeleza!
Cidade - Sou mais rica do que tu,
              Que nada tens afinal!
Aldeia - Tenho aqui dentro do peito:

              "A ALMA DE PORTUGAL"!!!


Eu nasci depois de uma década de liberdade e estudei (felizmente) na escola pública de Abril. No entanto, o meu livro conservava algumas heranças do obscurantismo fascista, provando que há amarras bem difíceis de cortar...