Hoje, como é habitual, acordei com a Antena 1 e ouvi uma reportagem sobre o pão caseiro no distrito de Bragança (ouvir aqui). São dois minutos de reportagem que acabam magistralmente:
"Antigos fornos de pão agora com mais actividade Numa fornada de pão as famílias economizam muito dinheiro e têm a garantia de um pão de excelente qualidade."
Esta reportagem lembrou-me um texto do meu livro de Língua Portuguesa da 4ª classe chamado "A cidade e a aldeia". É a exaltação da ruralidade empobrecida, "A alma de Portugal" que vive num casebre desprovido de electricidade. Eu gosto muito de pão caseiro, mas foi isto que a reportagem de hoje me lembrou.
"A Cidade e a Aldeia"
(Abílio Mesquita)
Cidade - Quem és tu, assim tão simples?
Aldeia - E tu, quem és a final?
Cidade - A nobreza da Cidade.
Aldeia - Aldeia de Portugal.
Cidade- Tenho lindas pedrarias,
Jóias mil de muitas cores...
Aldeia - E eu tenho maior riqueza
Nas minhas tão lindas flores...
Cidade - Tenho risos, alegrias
Divertimentos constantes
Aldeia - Tenho a música dos ninhos
E canções inebriantes.
Cidade - Tenho luz de noite a jorros,
E não me levas a palma.
Aldeia - Tenho o Sol durante o dia,
De noite a luz da minha alma...
Cidade - Vivo em palácios vistosos
Que abundam pela Cidade.
Aldeia - E eu num casebre pequen0,
Que o Sol beija com vaidade!
Cidade- A História fala de mim,
Porque tenho algum valor...
Aldeia - Também tenho a minha História,
Escrita com o meu suor
Cidade - Tenho o luxo que tu vês
Próprio da minha grandeza.
Aldeia - E eu o luxo e a vaidade de gostar da singeleza!
Cidade - Sou mais rica do que tu,
Que nada tens afinal!
Aldeia - Tenho aqui dentro do peito:
"A ALMA DE PORTUGAL"!!!
Eu nasci depois de uma década de liberdade e estudei (felizmente) na escola pública de Abril. No entanto, o meu livro conservava algumas heranças do obscurantismo fascista, provando que há amarras bem difíceis de cortar...
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16.10.12
20.7.12
Controversias
Um tio meu diz que o José Hermano Saraiva é o maior mentiroso da História (verdade nos dois sentidos em que esta frase pode ser interpretada).
Quando à hora do almoço soube que dito indivíduo tinha morrido não senti pesar nenhum, confesso.
Pergntei-me, isso sim, qual seria o facho retinto e assumido que iriam arvorar em grande historiador agora que este ministro da educação do fascismo morreu. Estando eu nestas interrogações ouvi o pivôt na televisão dizer que José Hermano Saraiva era um homem politicamente controverso.
Pelos vistos na mesma reforma vocabular em que a caridadezinha passou a chamar-se "solidariedade" os fascistas passaram a chamar-se: "pessoas políticamente controversas".
Se deixassem de nos tentar engazupar e chamassem os bois pelos nomes, isso é que era história!
Quando à hora do almoço soube que dito indivíduo tinha morrido não senti pesar nenhum, confesso.
Pergntei-me, isso sim, qual seria o facho retinto e assumido que iriam arvorar em grande historiador agora que este ministro da educação do fascismo morreu. Estando eu nestas interrogações ouvi o pivôt na televisão dizer que José Hermano Saraiva era um homem politicamente controverso.
Pelos vistos na mesma reforma vocabular em que a caridadezinha passou a chamar-se "solidariedade" os fascistas passaram a chamar-se: "pessoas políticamente controversas".
Se deixassem de nos tentar engazupar e chamassem os bois pelos nomes, isso é que era história!
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17.3.11
Assim ou com mais cheiro a mofo?
"Foi um esforço tamanho da Nação. Foram anos de incorporações sucessivas, envolvendo cerca de um milhão de jovens de todas as regiões do País que, de forma exemplar, cumpriram a sua missão por terras africanas."
"Saudamos com especial apreço, pelo muito que lhes devemos, os militares de etnia africana que, de forma valorosa, lutaram ao nosso lado. Todos, combatentes por Portugal!"
"É, aliás, de toda a justiça distinguir a intervenção militar que permitiu que um País com a dimensão e os recursos de Portugal pudesse manter o controlo sobre três teatros de operações distintos, vastos e longínquos. É internacionalmente reconhecida a forma como foi concebida a estratégia da guerra e travados os combates, o que demonstra o esforço do País e dignifica a memória dos seus combatentes."
"A guerra em África materializou, como salientei em 2010, no Dia do Combatente, “o fim violento de um ciclo nacional, mas que deixou, nas picadas sangrentas que trilhou, honra militar capaz de abrir o caminho a uma cooperação fraterna e frutuosa” com aqueles países irmãos."
"A vossa geração criou, também, as condições para que Portugal seja um País democrático, mais livre, mais solidário e mais aberto ao Mundo. Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar."
No discurso do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, do PPD-PSD de Sá Carneiro (gosto das coisas claras e bem explicadas) na Cerimónia de Homenagem aos Combatentes, por ocasião do 50º aniversário da Guerra Colonial, são raros os parágrafos que não tenham alguma alusão racista ou fascista.
Ver também aqui, aqui e aqui.
"Saudamos com especial apreço, pelo muito que lhes devemos, os militares de etnia africana que, de forma valorosa, lutaram ao nosso lado. Todos, combatentes por Portugal!"
"É, aliás, de toda a justiça distinguir a intervenção militar que permitiu que um País com a dimensão e os recursos de Portugal pudesse manter o controlo sobre três teatros de operações distintos, vastos e longínquos. É internacionalmente reconhecida a forma como foi concebida a estratégia da guerra e travados os combates, o que demonstra o esforço do País e dignifica a memória dos seus combatentes."
"A guerra em África materializou, como salientei em 2010, no Dia do Combatente, “o fim violento de um ciclo nacional, mas que deixou, nas picadas sangrentas que trilhou, honra militar capaz de abrir o caminho a uma cooperação fraterna e frutuosa” com aqueles países irmãos."
"A vossa geração criou, também, as condições para que Portugal seja um País democrático, mais livre, mais solidário e mais aberto ao Mundo. Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar."
Aníbal Cavaco Silva
Discurso na Cerimónia de Homenagem aos Combatentes
15 de Março 2011
No discurso do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, do PPD-PSD de Sá Carneiro (gosto das coisas claras e bem explicadas) na Cerimónia de Homenagem aos Combatentes, por ocasião do 50º aniversário da Guerra Colonial, são raros os parágrafos que não tenham alguma alusão racista ou fascista.
Ver também aqui, aqui e aqui.
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15.3.11
Qualquer dia, qualquer dia
Eu hei-de ser uma daquelas pessoas que viveram esses tempos horríveis em que não se tinha um emprego estável, em que não se sabia se se teria trabalho no mês seguinte, ou na semana seguinte.
Saberei contar a história dos que passaram de ser dos quadros da função pública a estarem na mobilidade especial.
Serei desses tempos em que as pessoas se perguntavam quanto tempo mais demorariam a encontrar trabalho porque há vários meses que procuravam sem sucesso.
Serei desse tempo em que as pessoas sobreviviam de biscates taxados a 30 % do que recebiam.
Serei desse tempo em que um licenciado, um mestre ou mesmo um doutor poderia estar a desempenhar trabalho altamente qualificado durante anos a fio sem que isso fosse contabilizado para a idade de reforma ou contando como se recebesse o ordenado mínimo para o cálculo da pensão de reforma porque não tinha um emprego, tinha uma bolsa. Mas também serei do tempo em que o Estado desperdiçava o investimento (cada vez menor, é certo) feito na formação académica dos seus cidadãos empurrando licenciados e mestres para as caixas dos supermercados, o desemprego e a emigração.
Serei desses tempos difíceis de imaginar em que a educação se pagava e era só para alguns e a saúde também.
Serei desse tempo em que os idosos morriam de fome ou de doença porque se se medicavam não comiam e se comiam não se medicavam.
Serei daquela época negra em que havia milhares de pessoas a passar a noite em caixas de cartão dentro de multibancos.
Terei vivido aqueles anos estranhos em que as negociatas espoliavam o Estado do dinheiro dos contribuintes e se tapavam os buracos saqueando salários e pensões de reforma.
Farei parte dessa fatia da população que pode contar a história de quando os corruptos chegavam a lugares de poder e ficavam impunes mesmo quando havia provas contra eles apuradas pela polícia.
Serei uma dessas pessoas que contarão como era preciso deitar contas à vida e ver na bola de cristal o futuro antes de decidir ter um filho.
Terei netos que não entenderão como os bancos puderam algum dia ser privados.
Contarei o conto de como em tempos idos havia blocos político-militares que governavam além fronteiras.
Serei uma dessas pessoas que saberão contar como era quando a economia controlava a política e não ao contrário.
Serei alguém que poderá contar como o Povo se levantou e disse "BASTA!".
Um dia o Portugal em que vivemos fará parte do imaginário dos meus netos da mesma maneira que o fascismo faz parte do meu; e eles estranharão o velho de maus vinhos que no café dirá "No tempo do capitalismo é que era, a ver se não andavam todos em sentido, não era como agora, não!".
E esse dia já esteve bem mais longe.
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