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26.6.22

Se a hipocrisia pagasse imposto

Em 22 de Janeiro de 1973 a Suprema Corte dos Estados Unidos da América entendeu que o direito ao respeito à vida privada garantido pela Constituição daquele país se aplicava ao aborto, tornando-o legal em todo o território, independentemente das leis de cada estado sobre o tema. A 24 de Junho de 2022 a Suprema Corte derrubou essa decisão e devolveu aos estados o poder de decisão sobre a criminalização do aborto.

No seguimento das notícias sobre essa decisão várias personalidades à cabeça de várias instituições vieram pronunciar-se. Por exemplo:

“O secretário-geral (António Guterres) há muito que acredita que a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos são a base de uma vida de escolha, empoderamento e igualdade para as mulheres e raparigas do mundo” Farhan Haq (porta-voz da ONU)

Não consigo deixar de achar curiosa esta formulação. Não sei quanto tempo é muito tempo para o Eng. António Guterres, mas eu lembro-me que a posição dele sobre a saúde e os direitos reprodutivos da mulher não era bem essa há 24 anos, quando o seu próprio partido (PS) propôs e fez aprovar na Assembleia da República um projeto de lei que previa a legalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), a pedido da mulher durante as primeiras 10 semanas. Nessa altura, o beato então Primeiro Ministro do Governo Português fez um acordo com o então líder do PPD-PSD Prof. Marcelo Rebelo de Sousa obrigavam o país a um passo atrás fazendo um acordo para a realização do primeiro referendo do país, precisamente sobre a despenalização da IVG. Eram, pelo menos à época, ambos contra a despenalização da IVG a pedido da mulher.

Até chegarmos aqui já tinha havido várias iniciativas legais neste tema: 

  • Novembro de 1982, pelo PCP, um projeto de lei prevendo a despenalização da IVG, até às 12 semanas que foi chumbado;
  • Janeiro de 1984, pelo PS, um projeto de lei que previa a despenalização da IVG em caso de perigo para a saúde física e psíquica da mulher, violação e malformação do feto, que foi aprovado e que, na prática, mantinha o aborto clandestino uma vez que não bastava a vontade da mulher para que pudesse acontecer.
  • 1996, três projetos de lei: um pelo PCP e outro pelo PS que despenalizavam a IVG até às 12 semanas a pedido da mulher e outro que alargava os prazos para a IVG legar no caso de malformação do feto e de violação, também pelo PS.
  • Janeiro 1998, a par com o projeto de lei apresentado pelo PS o PCP apresentou também um projeto de lei visando a despenalização da IVG a pedido da mulher, nas primeiras 12 semanas.
O referendo realizou a 28 de Junho de 1998, um Domingo de sol e calor, depois de uma campanha abjeta por parte da Igreja e dos partidos da direita (sim, eu sei, a diferença não é muita). A abstenção foi de 68,1% dos inscritos, votaram 2 709 503 pessoas. Dos votos validamente expressos 49,1% foram a favor da despenalização e 50,9% contra. Assim, por opção do Eng. António Guterres e do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, 15% da população recenseada portuguesa decidia continuar a atirar para o aborto clandestino as mulheres mais pobres do nosso país (as outras iam a Espanha). As mulheres com menor acesso à saúde, ao planeamento familiar, à vida em geral eram empurradas para o vão de escada, para o carniceiro ganancioso e, se sobrevivessem, para o banco dos réus!

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Nesse referendo tinha 14 anos, não podia votar e foi o primeiro murro no estômago que apanhei em processos de votação. Não que as minhas preferências tivessem alcançado grandes vitórias antes, mas desta vez eu achei mesmo que era possível.
Por causa desta opção, tivemos que esperar 9 anos para poder voltar a almejar a opção, para voltar a almejar a dignidade e a saúde reprodutiva das mulheres. Sim, das mulheres, aos homens sempre pôde ser indiferente o aborto, porque sempre pôde ser indiferente a gravidez. 
Também em 2007 a campanha do "Não" foi um asco. Lembro o engajamento não só da Igreja e dos partidos da direita, mas do capital nesta campanha. Os meios financeiros dos partidário do "Não" eram enormes, até bonequinhos de borracha a retratar fetos humanos tinham! Fomos, os partidários da escolha, da saúde e da dignidade insultados de tudo o que imaginem, mas saímos vitoriosos, todos, o país todo e sobretudo as mulheres mais pobres, porque passou a ser possível realizar a IVG legalmente, em segurança e no Serviço Nacional de Saúde.
Deixo aqui a título de exemplo e para memória futura o vídeo em que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tornava pública a sua posição contra a despenalização da IVG por pedido da mulher. Quando nos lembramos disto é fácil perceber que ele não condene o retrocesso nos EUA, ou mesmo que não consiga chamar-lhe retrocesso.




"A grande lição é que esta viragem traduz uma posição mais conservadora, no caso das armas, e mais doutrinária, no caso da interrupção voluntária da gravidez" Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente da República Portuguesa)


Só em 2007 pudemos referendar novamente a despenalização da IVG. Dessa vez votei, estava a viver em Espanha e vim expressamente para fazer campanha e votar. Foi a única vez que tive franco prazer a contar votos, mas isso não me fez perdoar. Não me esqueço, Sr. Engenheiro, não me esqueço.


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11.9.11

No 11 de Setembro



Não ter televisão poupou-me hoje ao bombardeamento (salvo seja) de notícas sobre o 11 de Setembro de 2001. A julgar pela página inicial do Público online ainda bem...

Sinto quase sempre um cansaço considerável quando ouço notícias sobre o 11 de Setembro de 2001, com uma leve pitada de irritação.
Não é que não entenda que o desmoronar das torres representou um enorme drama humano para milhares de pessoas e famílias, isso entendo perfeitamente. O que me irrita realmente é o aproveitamento que desse drama é feito. Com esse drama se justificou o esforço de guerra adicional dos EUA por todo o mundo, mas sobretudo no Médio Oriente. Com ele se manipulou e embruteceu um povo, aproveitando e potenciando medos, o medo da guerra e o da destruição, mais do que justos e fundados, diria mesmo que óbvios (afinal, não há povo que não procure a Paz).

Com o ataque ao World Trade Center se vitimizou um governo assassino e sanguinário, na linha de outros governos igualmente assassinos e sanguinários do mesmo país. Seguidores de uma mesma política de ingerência politico-militar em estados soberanos e de uma economia em que o prato da balança em que se colocam os barris de petróleo pesa sempre mais do que o das vidas humanas.

Podemos acreditar na versão de vítima do governo dos EUA ou nas teorias da conspiração que nos dizem que tudo aquilo foi orquestrado pelo próprio governo Bush (e o Obama não desaproveitou nada), ou mesmo em nenhuma das duas. Em qualquer dos casos não podemos deixar de concluir que todo aquele drama humano, toda aquela morte e todo o horror do 11 de Setembro de 2001 (que o foi para muitas, muitas famílias) se devem à política de guerra, de desrespeito pelo direito internacional e pela auto-determinação dos povos desde sempre levada a cabo pelos governos dos EUA. Política bem evidenciada pela célebre frase do Henry Kissinger (sim, esse que foi Nobel da Paze m 1973) a propósito do Chile: "I don't see why we need to stand by and watch a country go communist due to the irresponsibility of its own people." ("Não vejo porque precisamos de ficar parados a ver um país tornar-se comunista devido à irresponsabilidade do seu próprio povo").

O 11 de Setembro de 2001 é consequência exactamente das mesmas opções politico-económicas, da mesma estratégia de relações internacionais, da responsabilidade do governo dos EUA, que o 11 de Setembro de 1973. Esse claramente um atentado da Casa Branca, um crime hediondo sobre o povo chileno, crime que não começou nem acabou nessa data nem nesse país. A manipulação da comunicação social, o untar de mãos, a agitação, as greves pagas em dólares, os atentados e os assassínios (como o do general René Schneider) começaram anos antes a preparar o golpe. Mas não ficaram pelo 11 de Setembro de 1973, os assassinatos, as prisões políticas, as torturas, e estenderam-se no tempo e no espaço (disso é exemplo o assassinato do general Carlos Prats e da sua esposa no exílio em Buenos Aires).

O tratamento que é feito pela comunicação social do 11 de Setembro de 2001 é vergonhoso! O drama humano de todas as famílias de algum modo afectadas pelo ataque às torres gémeas, consequência directa da política dos EUA é usado para apagar da memória um dos mais feios crimes dos EUA contra um povo (o chileno) e para justificar acrescidas agressões a povos soberanos (sem esquecermos que o primeiro agredido, ainda que de forma bem diferente, é o povo dos Estados Unidos da América).

No 11 de Setembro, sem menosprezar o sofrimento vivido nos EUA em 2001, lembro Salvador Allende,  homem recto e de palavra, que cumpriu o mandato que o seu povo lhe deu até às últimas consequências e fico com o exemplo do que um Homem deve ser.

6.8.11

Tristes efemérides

"A 6 de Agosto assinalam-se 66 anos de um dos maiores crimes que a história da humanidade conhece.
75 mil pessoas foram instantaneamente mortas devido ao rebentamento de uma primeiro bomba atómica. A cidade de Hiroshima foi arrasada; humanos, restantes animais e plantas ou foram mortos ou ficaram indelevelmente afectados.
A 9 do mesmo mês de 1945, idêntico crime foi praticado sobre outra cidade japonesa: Nagasaki.
Esses eventos funestos foram o culminar do holocausto da 2ª Grande Guerra Mundial.
E foi um acto completamente injustificável e mesmo desnecessário do ponto de vista militar: aquelas cidades não eram alvos militares, a Alemanha tinha-se rendido já, e o Japão, além de derrotado, já dera sinais de se vir a render.
Os EUA, ao utilizarem aquele armamento, quiseram afirmar o seu poder. Foi um aviso a quem pretendesse opor-se à sua hegemonia; uma chantagem e uma ameaça que perduraria sobre os povos.
A actual situação internacional caracteriza-se por guerras de agressão (Afeganistão, Iraque, Líbia) e por continuada manipulação e subversão do Direito Internacional. Algumas potências económicas e militares tornaram usual a hipocrisia, a ameaça, a mentira e o uso da força nas relações internacionais, para subjugar outras nações. Reflexo, também, da mais grave crise financeira e económica desde 1933.
A História não se repete, mas temos que reconhecer existirem preocupantes semelhanças com a situação económica e politica mundial do início dos anos 30.
A grave crise do capitalismo agrava o perigo de uma guerra, porventura geral, que em vista do armamento moderno existente, arrasaria o habitat e a espécie humana. O capitalismo tem encontrado nas guerras uma das saídas para as suas crises, foi assim em 1914, e de novo em 1939. Porém, uma guerra com os actuais armamentos poria em risco a existência da humanidade."

Comité Português para a Paz e a Cooperação

10.2.11

Olha que isso é que é descoberta!

No Público lê-se:


"Os partidos de esquerda propuseram esta quarta-feira no Parlamento que o Governo reconheça o Estado da Palestina. Uma pretensão que rejeitada pelo PS e PSD que insistiram na continuação de negociações para a criação desse estado."


A notícia em si não é particularmente estranha. Afinal não se esperava do PS nem do PPD-PSD outra postura que não seja a de total subserviência aos interesses dos EUA e respectivos aliados geo-estratégicos. Assim, como o respeitinho (ou a miúfa) é muito lindo, não há que afrontar Israel, isso podia ter consequências nefastas para as ambições de futuro dos nossos dirigentes e respectivos protegidos. Comparando o Mundo com um escola, qualquer criança de escola sabe que uma afronta ao filho do director dá direito a uma repreensão, não do filho, mas do director. É por isso, e porque o director do PS e do PPD-PSD (assim como do CDS-PP) é o governo dos EUA que a notícia não é estranha.

O que é estranho nesta notícia é que nela, o Público, finalmente deixa de incluir o PS no conjunto dos partidos de esquerda!

4.6.10

Israel, EUA e a Paz

O pacifismo deste Nobel da Paz já deixou de me surpreender há uns tempos, agora cansa-me profundamente ao mesmo tempo que continua a indignar-me.

21.4.10

A Justiça demora mas chega


O último ditador argentino, o general Reynaldo Bignone (82 anos), foi condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos.
Este é um gostinho que já ninguém tira aos argentinos. Ao contrário do que acontece no Chile, os responsáveis estão a sentar-se no banco dos réus e não morrerão impunes.

Este senhor foi, além de Presidente entre 1982 e 1983, vice-chefe da base militar Campo de Mayo, o maior centro de tortura da Argentina, entre 1978 e 1979.Foi nessa altura que teve responsabilidade directa em 56 homicídios e no rapto de 500 bebés, cujas mães foram obrigadas a dar à luz em centros de detenção clandestinos.
Claro que quem diz centros de detenção diz de tortura, violação, assassinato e qualquer das combinações possiveis. E clandestinos, para ninguém saber do que lá se fazia ou a quem se fazia ou onde estavam aqueles a quem se fazia e desfazia (sobretudo desfazia). Para aumentar o drama dos desaparecidos, o sofrimento e o desespero das famílias. Na América Latina fez escola essa forma de tortura colectiva de todo o povo de um país.

Estima-se que no Campo de Mayo terá havido 30 mil mortos e desaparecidos.

Bignone diz que não, que só se provaram 8 mil desaparecidos e 30 crianças raptadas. Eu acredito mais na estimativa que em Bignone, mas mesmo que tenha razão, merece menos ser preso, merece menos o meu ódio e o meu asco por 8 mil desaparecidos que por 30 mil? Por 30 crianças de raptadas que por 500? Acho que não.

Demonstrando-se ainda mais revoltante, este ser ignóbil chega a dizer, como isto o desculpasse de alguma forma, que as vítimas “não eram nem tão jovens nem tão idealistas”. Será possível ser-se mais baixo?

Mas na história e nas declarações deste senhor há paralelos curiosos e tão feios que são quase obscenos. Bignone "justifica-se" dizendo que as Forças Armadas argentinas "tiveram que intervir para derrotar o terrorismo". É só a mim que isto soa familiar?

Também me soam familiares e recentes histórias de centros de detenção cladestinos e são especialidade dos mesmos que aplicam o discurso do terrorismo. Curiosamente também são os mesmos que treinaram as forças especiais de todas as ditaduras da América Latina.

Sim, O Estados Unidos da América, com mais ou menos melanina.

13.8.09

Os grandes educadores da América Latina

Deste artigo no diário La Jornada destaco algumas passagens:

"(Ballesteros)Aclaró que las aeronaves estadunidenses que operarán en Colombia sólo darán apoyo de inteligencia y logística a las tropas que participan en la lucha antidrogas y contrainsurgente."

Neste caso tenho que admitir que, no meu entender, "solo" isto para mim já é uma ingerência dos EUA na Colombia. Mas os EUA há décadas que são muito bons professores de diversos governos Latino-Americanos no que toca a estratégia militar...

"El gobierno de Washington ha entregado ayuda por más de cuatro mil millones de dólares al Plan Colombia"

Não são uns queridos? Quatro mil milhões de dólares para combater o narcotráfico! São mesmo porreiros estes estadunidenses, mesmo fixes! Claro que se se acabasse o mercado no Norte o tráfico diminuiria substancialmente, mas o que é mesmo importante é que eles querem ajudar!

"La ofensiva colombiana contra el narcotráfico se concentra en zonas donde actúan las rebeldes Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC), lo que hace posible una confrontación militar."

E aqui finalmente tudo se torna claro e podemos mesmo dizer: "Ah! Agora já percebi tudo!"
É que, bem vistas as coisas, a luta nunca foi contra o narcotráfico, mas sim contrarevolucinária e o governo de Uribe nunca foi soberano, mas sim lacaio.

6.8.09

"E uma vida de paz exigimos!"


Há 64 anos o então presidente dos EUA, Harry Truman terminou o projecto iniciado por Roosevelt lançando a primeira bomba atómica sobre Hiroshima.

A Segunda Guerra Mundial tinha acabado em Maio, mas ele queria experimentar o brinquedo novo, afinal tinha-se gasto tanto dinheiro naquilo que seria uma pena não usar!
E como se não bastasse repetiu a proeza passados 3 dias em Nagasaky. Aos milhares de mortos instantâneos há que juntar os mortos por ferimentos, por exposição a radiação, os cancros, as leucemias, as deformações nas gerações seguintes e estamos a falar de uma larga maioria de civis.

Os EUA são o único país que cometeu uma atrocidade deste tamanho contra a população humana. Talvez seja por isso que se acham no direito de dizer quem pode ter ou não armas nucleares. Eu diria que precisamente por isso não deviam ter voto na matéria mas enfim...

Pelo menos, quando me lembro destas atrocidades também me lembro da grande voz da Luísa Basto a cantar o hino da FMJD que sempre é uma coisa bonita no meio de tanta fealdade (e que podem descarregar aqui).

12.7.09

Celebrando as vitórias


do movimento sindical nos EUA.


Fiquei a saber delas pelo Avante!, claro!

E só por causa disso lembrei-me do muito didáctico talking union cantado pelo Pete Seeger que vos deixo aqui. (desculpem a má formatação mas não pude fazer nada a propósito)

15.6.09

Sempre a aprender


Como se está sempre a aprender ontem soube que a raíz do problema do conflito israelo-palestiniano é a insistência dos países árabes em não reconhecer o Estado de Israel. Ensinou-mo o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu quando também anunciou fará o especial favor de reconher o direito dos palestinianos a um Estado.
Dito assim até parece boa notícia. Faltou acrescentar que não reconhece o direito a um Estado soberano. O que Netanyahu "propõe" é que os palestinianos tenham um estado totalmente desmilitarizado e sem controlo do seu espaço aéreo. E agora adivinhem lá quem seria o principal polícia que garantiria essa desmilitarização! Os EUA, claro!

Quanto aos colonatos israelitas, não se construiriam mais, mas a retirada dos que já existem é uma possibilidade que nem sequer se coloca. Ah! E não esqueçamos que Jerusalém tem que ser a capital de Israel e só de Israel e que Israel tem que ser considerado como "o Estado dos Judeus".
Nunca percebi porque é que uma religião tem direito a ter um Estado (naturalmente também não percebo a existência do Vaticano).

Condensando bem as afirmações deste senhor os palestinianos têm direito a chamar Estado a um monte e pedras e areia, sem a sua capital, sem capacidade de defesa ou controlo do espaço aéreo e controlado pelos EUA. E diz isto o primeiro-ministro de um dos estados mais militarizados do planeta e que ainda por cima conta com arsenal nuclear, mas é normal! Assim fica a comunidade internacional feliz porque os palestinianos já têm um Estado e Israel tem facilitada a tarefa de genocídio de um povo a que se dedica desde a sua formação (na terra de outros, não nos esqueçamos).

As reacções a estas afirmações foram, naturalmente diferentes. A Autoridade Palestiniana, obviamente, rejeita as condições de Israel. Já Obama acha que a atitude israelita é um passo em frente no processo de paz e saúda o discurso de Netanyahu, demonstrando que a política dos EUA de protectores de Israel não vai mudar tão cedo e a UE faz coro.

5.5.09

Listas e Consciências

No pasado dia 30 de Abril os EUA voltaram a classificar Cuba como nação que fomenta o terrorismo, assim como o Sudão, o Irão e a Síria, numa dessas listas que eles gostam de fazer para etiquetar e estigmatizar países que não se alinham com as práticas e as ideologias dominantes.


Um reporter da France Presse perguntou ao Ministro de Relações Exteriores Cubano, Bruno Rodríguez, a sua opinião a respeito. A resposta merece ser publicada na íntegra.


"Nosotros no reconocemos ninguna autoridad política ni moral al Gobierno de EE.UU. para hacer lista alguna, en ningún tema, ni para ‘certificar’ buenas o malas conductas.

"El Gobierno de Bush fue ‘certificado’ por la opinión pública mundial como un gobierno violador del derecho internacional, agresivo, guerrerista, como un gobierno que tortura, como un gobierno responsable de ejecuciones extrajudiciales.

"Bush ha sido el único Presidente que se ha jactado en público, en el Congreso norteamericano, de haber realizado ejecuciones extrajudiciales, un gobierno que secuestró personas y las trasladó de manera ilegal, que creó cárceles secretas, que nadie sabe si todavía se mantienen, que creó un campo de concentración donde se tortura en la porción de territorio que usurpa a la República de Cuba.

"En materia de terrorismo, el Gobierno de los EE.UU. históricamente ha tenido un largo expediente de acciones de terrorismo de Estado, no sólo contra Cuba.

"En Estados Unidos se pasean libres Orlando Bosch y Posada Carriles, responsables de numerosos actos terroristas, incluida la voladura de un avión civil cubano en pleno vuelo. No se responde la solicitud de extradición de Venezuela con relación a Posada Carriles, a quien se juzga por cargos diversos, pero no como un connotado terrorista internacional.

"El Gobierno de Estados Unidos realizó un proceso amañado contra los cinco jóvenes luchadores antiterroristas cubanos que hoy permanecen como presos políticos en sus cárceles.

"El Gobierno de Estados Unidos ampara actos de terrorismo de Estado, cometidos por Israel, contra el pueblo palestino y los pueblos árabes. Guardó silencio ante los crímenes ocurridos en la Franja de Gaza.

"De manera que a Estados Unidos no habría que reconocerle la menor autoridad moral y yo, francamente, creo que nadie hace caso ni lee esos documentos, entre otras cosas, porque su autor es un delincuente internacional en muchos de los temas que critica.

"La posición de Cuba contra toda manifestación y forma de terrorismo, dondequiera que se cometa, contra cualquier Estado que se cometa, en cualquier forma que se realice, con cualquier propósito que se proclame, es clara y consistente con su actuación.

"Cuba ha sido víctima del terrorismo por muchos años y tiene una hoja de servicios totalmente limpia en esta materia. Jamás el territorio cubano se ha utilizado para organizar, financiar o ejecutar actos terroristas contra los Estados Unidos de América. El Departamento de Estado, que emite esos informes, no podría decir lo mismo."


Esta declaração foi emitida da reunião de chanceleres do Movimento dos Países Não Alinhados.

Apesar de vir com uns dias de atraso parece-me que não deixa de ser válido publicar aqui esta declaração, já que não a acho suficientemente divulgada. As pseudo-epidemias ofuscam (tão convenientemente) muitas coisas importantes no Mundo.


Já tinha feito algumas considerações sobre a postura do presidente Obama em relação a Cuba, parece-me que se tornou mais clara desde dia 30.


Por algum motivo os discursos de consciência tranquila soam sempre muito mais convincentes que os dos hipócritas com telhados de vidro, por muita lábia que tenha o hipócrita desavergonhado.

24.4.09

EUA e a estratégia para Cuba

Hoje fui ao meu café do costume em San Cristóbal. É o meu preferido porque os que lá trabalham têm sempre um sorriso e um atendimento simpático (é um dos motivos pelos quais acho que não podem ser tão mal pagos como a maioria), têm bom café, bons sumos e algo que me faz sentir mais em casa. Têm o jornal, um jornal nacional de pseudo-esquerda, que, bem vistas as coisas já não é mau no panorama da comunicação social mexicana. Embora em Portugal qualquer café que se preze tenha pelo menos um jornal local à disposição do cliente (tipicamente com o nome do café escrito no topo da primeira página a esferográfica bic cristal ou alguma de oferta de campanha eleitoral, PS ou PPD-PSD geralmente), isso não é prática comum no México, ou pelo menos em Chiapas.

O jornal que compram neste café é La Jornada. Publica artigos dos mais diversos assuntos e os artigos de opinião, uns mais responsáveis, reflectidos e mais justos que outros, são tipicamente de tendência de esquerda. Não posso dizer que seja o meu jornal preferido e posso mesmo dizer que é perfeitamente vendido em diversos temas e tendencioso de forma muito pouco revolucionária a maioria das vezes. Mas é, ainda assim, dos menos maus e através dele fiquei a conhecer as declarações do novo potencial embaixador dos EUA no México sobre Cuba.

O ilustre senhor, Carlos Pascual de seu nome, dizia que Brasil, México, Espanha, Canadá e União Europeia são países com os quais os EUA mantêm diálogo e que esse diálogo sobre os direitos humanos em Cuba tinha que continuar “Se podemos definir o princípio de que temos o mesmo objectivo de dar poder aos cubanos para mudar a política do seu país temos uma melhor oportunidade”.

Diz isto o nomeado para embaixador do país que ficou de fora do conselho para os direitos humanos da ONU, preterido por esse mesmo país onde segundo o EUA não se respeitam os direitos humanos.

Igualmente diz, ao bom estilo estadunidense, falando da estratégia a adoptar em relação a Cuba: “Essa estratégia tem que ser baseada em dar apoio e recursos aos cubanos dentro da ilha e em que a mudança tem que vir de dentro”. Apoio, recursos, eu entendo logística, dólares, não sei bem porquê mas lembra-me a estratégia que usaram contra o governo da Unidade Popular,democraticamente eleito no Chile.

Mas não se poderia esperar muito mais do escolhido pelo mesmo governo que antes da conferencia das américas tem a medida populista e de fachada de “aliviar” o bloqueio contra Cuba em vez de o levantar como compete a qualquer verdadeiro defensor dos direitos humanos. Mas levantar o bloqueio seria demais para alguém que não procura uma mudança mais profunda do que uma simples operação plástica, seria vontade política a mais para o senhor Obama assim como para qualquer dos seus nomeados.

A única coisa que eu não percebo é como é que ainda anda tanta gente enganada com este senhor. Afinal, assim como o hábito não faz o monje, a melanina não é fonte de bondade nem de sentido justiça.