A propósito da destruição do serviço público de rádio e televisão: "O Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão."
- Ponto 5, Artigo 38º Liberdade de imprensa e meios de comunicação social,
Hoje escrevi "abril" ou seja, à novo acordo ortográfico, sem maiúscula, só com letras minúsculas.
Como sou um bocado bota de elástico ainda não me tinha dedicado a escrever segundo as regras do novo acordo ortográfico e é-me mesmo algo desconfortável ter que mudar a maneira como escrevo.
Por exemplo faz-me confusão que o tecto passe a ser o masculino de teta (por mais que enquanto mamífero deva gostar de glândulas mamárias) ou que os egipcios deixem de ser habitantes do Egipto para habitarem o Egito, devendo a meu ver chamar-se neste caso egícios.
Mas hoje escrevi "abril", sem maiúscula, só com letras minúsculas, como se de um minúsculo mês se tratasse. Faz-me confusão que os meses deixem de ter nomes próprios e direito a maiúscula inicial, mas "abril"... Escrever "abril" "soou-me" mesmo mal.
Eu bem sei que a maneira de escrever é do que menos mal vai com o nosso mês de Abril (com maiúscula que agora não é só um mês, é bem mais que isso), mas um mês tão absolutamente maiúsculo devia ter direito a inicial maiúscula, caramba!
Um tio meu diz que o José Hermano Saraiva é o maior mentiroso da História (verdade nos dois sentidos em que esta frase pode ser interpretada).
Quando à hora do almoço soube que dito indivíduo tinha morrido não senti pesar nenhum, confesso.
Pergntei-me, isso sim, qual seria o facho retinto e assumido que iriam arvorar em grande historiador agora que este ministro da educação do fascismo morreu. Estando eu nestas interrogações ouvi o pivôt na televisão dizer que José Hermano Saraiva era um homem politicamente controverso.
Pelos vistos na mesma reforma vocabular em que a caridadezinha passou a chamar-se "solidariedade" os fascistas passaram a chamar-se: "pessoas políticamente controversas".
Se deixassem de nos tentar engazupar e chamassem os bois pelos nomes, isso é que era história!
13 de Junho de 2005. Fui a Lisboa, ao funeral da nossa Pessoa bonita #1 (o Companheiro Vasco, claro) e soube que tinha falecido nesse dia a nossa Pessoa bonita #3 (o Álvaro Cunhal).
A 17 de Junho esta era a capa do Avante:
Porque o Avante também sabe quão bonitas são estas pessoas.
Como sempre cabe agradecer-lhes e lembrá-las continuando o seu trabalho.
Mesmo que seja um atentado ao nosso povo,mesmo que nos afunde num fundíssimo lodaçal económico, desde que seja apresentado primeiro no Parlamento, cumprindo os devidos prazos, o PS fará o que tem feito até agora: assinará por baixo. Só não de cruz, afinal no grupo parlamentar do PS todos foram à escola e aprenderam a ler sem ser em centros de Novas Oportunidades...
Na Quinta-feira passada em Coimbra havia muitos programas culturais por onde escolher para animar a noite. Eu escolhi este:
Numa iniciativa conjunta entre a Editora Página a Página, a Casa da Escrita e o Ateneu de Coimbra assisti à apresentação do novo livro de António Avelãs Nunes "A Crise do Capitalismo: Capitalismo, Neoliberalismo, Globalização".
O livro foi apresentado por Sérgio Ribeiro, economista particularmente didáctico. (Podeis ler coisas dele diariamente aqui). Foi uma iniciativa particularmente interessante, como aliás é hábito das iniciativas com participação do Ateneu. Analisou-se a situação actual (económica e social) do nosso país, discutiram-se hipóteses de cenários futuros, oulhou-se lá para fora também (como não podia deixar de ser) e acalentou-se aquela esperança (quase certeza) de que um dia mudaremos "isto", ainda que nos custe muito esforço (e sofrimento).
Amanhã é dia de Greve Geral. Já o tinha dito no último "post". Mas pareceu-me quando o terminei que, embora estivesse correcto e claro, estava algo "seco". Por isso decidi escrever outro.
Amanhã faço Greve Geral e saio à rua. Como estou em Coimbra vou à praça 8 de Maio às 11h.
Amanhã faço Greve Geral porque tenho um local de trabalho fixo, não tendo um horário fixo cumpro um horário mais ou menos certo todos os dias. Desempenho funções diversas no âmbito de um projecto de investigação financiado pelo Estado através da FCT. Assinei um contrato de dedicação exclusiva. No entanto não tenho um vínculo juridico-laboral, desconto para a Segurança Social o Seguro Social Voluntário correspondente ao ordenado mínimo. Recebo 12 meses e já era isso que ia receber antes de o governo anunciar que roubaria os trabalhadores do subsídio de férias e de Natal. Sou bolseira de investigação científica. Tenho 27 anos e não sei bem o que vou fazer quando acabar a minha bolsa (que já não pode voltar a ser renovada), mas provavelmente esperar-me-á, na melhor das hipóteses, outra bolsa (possivelmente até no mesmo local de trabalho).
Para os leitores mais necessitados de explicações mais explícitas eu desenvolvo.
Amanhã faço greve e saio à rua pelo direito a um emprego seguro e com direitos, pelo reconhecimento do meu desempenho e da minha valia laboral e pelas funções sociais do Estado. Estas condições são fulcrais no desenvolvimento da vida pessoal dos cidadãos.
Sem elas está posto em causa o meu direito a tornar-me autónoma dos meus pais, a estabelecer-me; está em causa uma decisão tão pessoal e emocional como a de ter filhos. Está em causa o meu direito a uma maternidade consciente e feliz.
O discurso oficial é de tal modo derrotista e determinista que ultimamente me tem parecido que o objectivo é que deixemos serquer de sonhar.
Eu decidi que tente quanto tente, ninguém me fará deixar de sonhar, ninguém me vai castrar os sonhos. Os sonhos não! Mas quanto mais olho para as pessoas à minha volta, mais me parece que até de sonho andamos parcos.
Amanhã faço Greve e saio à rua pelo meu direito a ser útil à sociedade (e não só ao grande capital) e pelo meu direito de construir uma vida e a minha felicidade. Aliás, amanhã faço Greve e saio à rua pelo nosso direito a ser úteis à sociedade e pelo nosso direito de contruir uma vida e à felicidade.
E sim. Amanhã faço Greve e saio à rua também pelo nosso direito a sonhar, a sonhar os nossos pequenos sonhos individuais e os grandes sonhos colectivos também.
Seja qual for a porta em que se "plante" o teu piquete, é amanhã, 22 de Março de 2012, dia de Greve Geral.
Parafraseando a CGTP, contra a exploração e o empobrecimento, todos à Greve Geral!
Contra a desregulamentação dos horários e os bancos de horas.
Contra o roubo nos salários e pensões.
Contra o despedimento sem justa-causa.
Contra as privatizações.
Contra a política de recesseção e afundamento económico.
Pelo pagamento da nossa dívida e não da dívida alheia.
Pela renegociação de montantes, juros e prazos de pagamento.
Pela defesa e promoção do aparelho produtivo nacional.
Pela criação de emprego e riqueza.
Pela estabilidade laboral e pelo trabalho com direitos.
Pela melhoria dos serviços públicos e das funções sociais do Estado.
Pelo aumento dos salários e pensões de reforma.
Pelo conprimento da Constituição da República Portuguesa.
Por nós, nós todos enquanto povo de uma nação soberana é que eu faço Greve amanhã.
Como o prometido é devido voltamos a ter "Pessoas bonitas" na Eira. E elas regressam em grande!
A pessoa bonita de hoje é o Adriano Correia de Oliveira.
Este ano cumprem-se 25 anos sobre a morte do Adriano que morreu claramente cedo demais, aos 40 anos de idade (outros há que morrendo com menor idade já morreriam tarde, mas este não).
O Adriano foi um homem completo, de vida cheia e dedicada.
Soube aproveitar como poucos o que a vida estudantil coimbrã tem para oferecer bem para além da formação académica. É da secção de volei da AAC, do Orfeon académico, do Grupo Universitário de Danças Regionais, do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, da Tuna Académica, repúblico na Rás-Teparta, dos órgãos sociais da AAC e grevista em 1962.
Em 1960 entra para o Partido Comunista Português é activo na luta anti-fascista.
Canta, o Adriano canta. Canta tanto, canta tudo! O Adriano canta "Venho dizer-vos que não tenho medo!" no tempo em que o medo era rei. Canta a tristeza do fado de Coimbra, numa voz que não era de fado, era melhor. Canta a canção tradicional portuguesa, canta a revolução onde e quando fosse preciso.
Sobretudo o Adriano canta-nos.
Neste ofício em que era mestre fez imensas parcerias: com Manuel Alegre, José Calvário, José Niza, Rui Pato, António Portugal e tantos outros. Cantou por todo o lado, para grandes audiências e pequenos encontros; em Portugal e no estrageiro.
Adriano construiu a Revolução antes e depois dela.
Em 1979 ajuda a fundar a cooperativa artística Catarabril da qual acaba por ser afastado mais tarde juntando-se à Era Nova.
O último concerto do Adriano foi em Mondim de Basto em 1982, num encontro do PCP numa escola.
Nesse ano morre em Avintes, vítima de uma hemorragia esofágica e nós perdemos todos um excelente cantor e revolucionário.
O Adriano é uma das pessoas que tenho mais pena de não ter conhecido, mas já nasci tarde para isso. Ele fugiu-nos muito cedo. É uma pessoa extraordinariamente bonita,com uma voz que o espelha bem.
Para ouvir deixo-vos uma canção do seu último disco, "Quando eu cheguei ao Barreiro", tradicional Portuguesa, do Alentejo. Lembro-me dela muitas vezes quando penso na quantidade enorme de gente nova que conheço que migra para a capital ou para o estrangeiro, como se fazia há 50 anos, em busca de trabalho e outra vida.
É porque nós merecemos outra coisa, "coisa boa" que lutamos, mas também porque gente como o Adriano merece que o que cantava há tantos anos não seja ainda tão terrivelmente actual.
Dia 22 de Março é dia de Greve Geral!
-Quando eu Cheguei ao Barreiro-
-Canta Adriano Correia de Oliveira-
-Quando eu Cheguei ao Barreiro-
Vou-me embora p'ra Lisboa Porque a vida cá é má.
À busca de, de coisa boa Pergunto não encontro cá. À busca de, de coisa boa Pergunto não encontro cá.
Quando eu montei o comboio Que assoprava pela via.
Às vezes penso comigo e digo Não sei que sorte é a minha. Às vezes penso comigo e digo Não sei que sorte é a minha.
Quando eu cheguei ao Barreiro No barco que atravessa o Tejo.
Chora por mim qu'eu choro por ti Já deixei o Alentejo. Chora por mim qu'eu choro por ti Já deixei o Alentejo.
- a falta de reconhecimento do meu trabalho e da minha competência;
- a precariedade do meu trabalho;
- a exploração do nosso povo;
- a destruição do aparelho produtivo português (ou o que resta dele);
- o desmantelamento das empresas públicas de transportes;
- o empobrecimento generalizado da população;
- o roubo nos salários e nas pensões;
- a privatização do serviço nacional de saúde;
e tantas coisas mais que estes sacanas (para não lhes chamar oura coisa) andam a fazer que nem cabem cá todas é que eu vou no Sábado vamos ao Terreiro do Paço.
À conta das declarações do ministro da economia sobre o potencial económico internacional do pastel de nata e das lamúrias do (infelizmente) Presidente da República sobre a suficiência da sua reforma lembrei-me de um acanção muito pouco ortodoxa dos Quilapayún.
Desfrutem e atentem bem na última estrofe, que um dia isto vira, como a tortilla.
Hoje estive com um senhor (com idade suficiente para ter conhecido o tempo da outra senhora mas insuficiente para se reformar) que estava muito indignado com o convite do Primeiro Ministro à emigração dos professores, logo secundado e generalizado às outras classes profissionais por Paulo Rangel.
Ele perguntava "até quando" ía isto estar assim (a vergonha que se vê).
Eu respondi-lhe que até estalar, que eu andava a ver quando podia estalava.
Ele riu-se da expressão tão aberta do meu desejo (está habituado a ver mais resignação ou a revolta mais velada) e disse numa manifesta declaração de disponibilidade:
- Eu já fiz um 25 de Abril!
Como quem diz "quem faz um faz dois".
Ainda que eu saiba que as coisas não são assim tão simples é bom ver esta disponibilidade e este desejo.
É que há mais quem saiba que há alternativa à Austeridade e queira fazer por ela (a alternativa, claro).
Sem querer entrar numa grande explicação sobre a injustiça das taxas moderadoras quero dizer o seguinte:
1- As taxas moderadoras são injustas qualquer que seja o seu valor;
2- As taxas moderadoras são injustas mesmo que sejam mais altas para ricos e mais baixas para pobres (porque essa diferença se faz nos impostos ,sobre os rendimentos e não no SNS)
3- Que a Contituição da República Portuguesa diz no seu artigo 64º que imcumbe prioritariamente ao Estado "Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação"
E dizer que espero nunca ser atendida em nenhum hospital pela bastonária da Ordem dos Enfermeiros (Enf.ª Maria Augusta Sousa) porque me parece que tem um défice de inteligência maior do que o buraco financeiro da Madeira. Se assim não fosse talvez lhe ocorresse que melhorar as condições de trabalho e salariais dos enfermeiros seria uma forma muito melhor de valorizar o trabalho dessa classe profissional do que taxar (perdão, moderar) os utentes do SNS pelos seus serviços.
Adenda: Na sequência do comentário informado do Paulo Anacleto sinto-me na obrigação de referir no post que a Ordem dos Enfermeiros efectivamente repudiou, através de uma nota de imprensa do seu Conselho Directivo, o aumento das taxas moderadoras.
No entanto, não deixa de ser verdade que a Bastonária acima referida se pôs bem a jeito para a Antena 1 empolar desmesuradamente (e talvez até distorcendo o que a senhora disse) as suas palavras (audíveis aqui). Alguém com cargos com esta importância e tempo de antena tem que pensar melhor no que diz antes de dizer.
De qualquer modo agrada-me muito (naturalmente) a posição oficial da Ordem dos Enfermeiros.
Saiu de casa apressada ainda que sem horário fixo para chegar a lado nenhum.
Saiu de casa com pressa de sair de casa, fugindo dos afazeres.
Saiu de casa com passo rápido e a ouvir um punk-rock animado na esperança de libertar pressão.
Saiu de casa de mandíbula apertada como quem mastiga uma raiva ou um desespero.
Saiu de casa na urgência de relaxar, sentou-se na esplanada e pediu um café.